“Quantos anos tem uma criança ao nascer? De um ponto de vista biológico, como herdeira de nosso passado genético, e, de um ponto de vista antropológico, como herdeira de nosso passado sociocultural, ao nascer uma criança tem muitos e muitos anos. Essa síntese, o que ela representa já é – de fato – uma primeira abertura para todos os possíveis. Como mamífero, para qualquer mama. Como ser de linguagem, para qualquer língua, costume ou forma de comunicação. Nasce, assim, de seu ponto de vista, como cidadã do mundo. Um ser real, mas, sobretudo virtual. Atualizar suas possibilidades – de forma sensório-motora – em seu próprio corpo, no corpo de sua mãe, bem como dos objetos que fazem parte de seu mundo implicará, pouco a pouco, uma segunda forma de abertura de sua inteligência para todos os possíveis.

Por volta dos dois anos, a criança abre-se para o mundo dos símbolos, podendo, agora, sintetizar em palavras, gestos, imagens, convenções, tudo aquilo que já vivera como sentimentos ou movimentos. Além disso, pode pensar ou projetar coisas impossíveis no plano sensório-motor. Pode sonhar, fantasiar, fazer perguntas, simular explicações, fazer de conta. A segunda forma de abertura para todos os possíveis, pouco a pouco, vai permitindo a entrada da criança no mundo, agora, organizado como conceitos, contendo soluções técnicas para tantas coisas – escritas, cálculo, mapa, etc. – as quais apresentam à criança tudo aquilo que, de uma forma operatório-concreta, a humanidade pôde selecionar, organizar, antecipar, encaixar, ordenar, e assim sobreviver. Essa seria uma terceira forma de abertura para todos os possíveis.

Na adolescência, a criança descobre, ou melhor, inventa, seja como teoria, seja como prática, um quarto modo de abertura para todos os possíveis. Como conceituar objetos que ainda não têm forma? Como classificar ou ordenar, se o critério incluído / excluído, maior que / menor que / igual, já não é mais suficiente? Por que organizar alguma coisa sobre a qual não se tem convicção? Que se quereria diferente? Em outro lugar, de outra forma, em outro corpo, com outros valores? Em outras palavras, doravante o materialmente possível há de se subordinar ao estruturalmente possível.

Daí uma quinta forma de abertura – aquela que possibilita a entrada no mundo dos adultos e suas implicações (trabalho, escolha profissional, constituição de uma família, saída da casa dos pais, etc.). Boa parte de nossa vida será gasta na busca de articular o passado (representado pelas primeiras quatro formas de aberturas), com esse presente, com todo o combinatório de possibilidades de realização. Essa quarta forma, é um ponto de partida para todas nossas aprendizagens e realizações como adultos e participantes de uma sociedade ou cultura. Ponto de partida porque suas possibilidades cognitivas permitem-nos desenvolver competências profissionais e habilidades de todos os tipos bem como realizar e participar das tarefas que nos caracterizam como adultos. A quinta forma de abertura para todos os possíveis refere-se à última parte de nossa vida. Expressa a sabedoria da velhice, com seu olhar generoso e compreensivo para um passado, que não volta mais, e com seu olhar sereno e corajoso para um futuro, cuja eterna realização só podemos vislumbrar como pura possibilidade.

Em síntese, penso que esse é o primeiro grande desafio do ser humano. Realizar-se como conhecimento, aberto para todos os possíveis, ainda que sempre encarnado em um corpo, ou seja, em coordenadas de espaço e tempo.

O espaço ao nos situar em um lugar abre-nos para suas múltiplas direções, permite-nos preenchê-lo com infinitos objetos. O tempo, ao nos localizar em uma linha, dá-nos liberdade para decidirmos as ações que faremos nele, seja em termos de sua duração, seja em termos de sua ordem ou prioridade.

Nestas considerações não estamos levando em conta o fato de que tantas e tantas pessoas vão ficando para trás em relação a essas possibilidades, seja por limitações orgânicas ou neurológicas, doenças de todos os tipos, falta de oportunidades sociais, injustiça, desigualdade e tantas outras formas de exclusão que caracterizam, hoje, a miséria de nosso mundo. Afinal, qual família, escola, bairro, cidade ou mundo não verifica entre seus membros, situações que negam tudo o que dissemos acima? Hoje, para nós, mais do que nunca, vivemos tempos de doenças incuráveis, uso de drogas perigosas, formas de convivência cada vez mais difíceis, dificuldades de aprendizagem na escola e trabalho, ódio e lutas fratricidas, acidentes que dilaceram corpos e almas, comércio desleal e consumo compulsivo, velhice rancorosa e rabugenta. É verdade tudo isso. Mas, talvez outro desafio nos devolvesse para um mundo de abertura para todos os possíveis.

Minha crença é que educação e saúde, entre outros fatores, possam nos ajudar a superar esses obstáculos. Que a educação possa nos reconciliar – por suas técnicas e teorias construtivas – com nossa condição social, antropológica e cultural. Que a saúde possa nos reconciliar – por suas técnicas e teorias construtivas – com nossa condição biológica, genética e universal. “

MACEDO, LINO DE. O desenvolvimento da criança como uma abertura para todos os possíveis. São Paulo, v.13, n.122, p.2-3, mar.1997.

Contribuição da psicopedagoga do Espaço Dom Quixote,

Valéria Franz Bock