Dom Quixote era um homem muito sonhador. Vivia imaginando grandes aventuras em que sempre fazia o papel de herói. Morava numa pequena aldeia na província de Mancha, na Espanha, onde havia nascido. Como tinha pouco o que fazer, sobrava-lhe tempo para sonhar e ler muitos livros. Gostava dos livros de aventuras, principalmente os que contavam as incríveis histórias dos cavaleiros andantes. Porém, de tanto ler e fantasiar, seu cérebro começou aos poucos a confundir-se. O passado e o presente se misturavam. Certo dia, convenceu-se de que era um daqueles valentes cavaleiros e tinha como missão ajudar os fracos e salvar as belas princesas raptadas por vilões. Vasculhando um escuro sótão cheio de coisas inúteis, Dom Quixote encontrou uma antiga armadura de algum de seus avós. Como estava toda desmantelada, deu um jeito de amarrar as partes rompidas com tiras de couro e ajeitar o melhor que podia os ferros tortos. Limpou-a depois muito bem, até ficar brilhante. Vestiu a estranha roupa, armou-se de uma velha espada enferrujada e de uma lança há muito ali esquecida, e sentiu-se tal qual um de seus heróis. Um cavaleiro andante que vivia num mundo de sonhos e seu fiel escudeiro resolveram, no século XVII, caminhar pela Espanha à procura de aventuras… Satisfeito, montou em seu magro e estropiado cavalo. Havia chegado a hora de sair em busca de aventuras, como um verdadeiro fidalgo da ordem dos cavaleiros andantes! Era um espetáculo ver o magríssimo dom Quixote vestindo aquela armadura tão ridícula e montado num pangaré esquelético, o Rocinante, arrastando-se pela estrada afora, sem rumo. (…) Dom Quixote de La Mancha, como ficou conhecido, chegou a uma pequena estalagem e pediu ao dono da casa que o fizesse cavaleiro. Ajoelhou-se diante do homem e ali ficou, esperando. Admirado com aquela estranha figura, e mais ainda com um pedido tão disparatado, o dono da estalagem chegou à conclusão de que Dom Quixote era louco e achou melhor fazer-lhe a vontade, para evitar aborrecimentos. – Tem dinheiro, nobre senhor? – perguntou, fingindo seriedade. Dom Quixote prometeu que lhe arrumaria algumas moedas e, assim, o comerciante dispôs-se a armá-lo cavaleiro. A cerimônia foi realizada num altar improvisado no meio de um pátio. Auxiliado por um garoto que segurava um toco de vela, o homem foi resmungando um monte de palavras incompreensíveis, que fingia ler num caderninho onde fazia as contas da estalagem. Afinal, montado em seu magro cavalo e com sua reluzente armadura, partiu o novo cavaleiro andante!

(CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. Ed. Scipione. Adaptação: José Angeli.)

Dom Quixote de La Mancha, o “Cavaleiro da Triste Figura”, foi tão bom, tão honesto e puro em suas loucas façanhas, que sua história é contada até hoje no mundo inteiro.

Contribuição da Psicopedagoga do Espaço Dom Quixote,

Valéria Franz Bock