Disseram-me, certa vez, que apenas temos a dimensão de tempo quando nos tornamos mãe. Na época, dei um sorrisinho amarelo e disse que sim, que compreendia. Pois não tinha noção do significado do tempo. Tornei-me mãe e descobri, dia após dia, o significado de uma palavra que julgava conhecer tão bem. O tempo, de acordo com o dicionário, é a duração dos fatos. Entretanto, quando nos tornarmos mãe, temos a nítida impressão de que essa ideia de tempo é um tanto (ou bem) diferente. Tempo de esperar uma gestação semana a semana, tempo de esperar o último mês, cujos 30 dias parecem triplicar. Tempo de chegar ao hospital, com um sorriso de orelha a orelha, e ter a certeza de que a noção de tempo está para ser ainda mais alterada.

Tornei-me mãe aos 36 anos. Quando vi meu bebê pela primeira vez o tempo simplesmente parou. Não vi mais nada, não ouvi mais ninguém, apenas ela. Quem dera todas as mães tivessem um momento mágico nessa hora. Sabemos que a realidade é dura com muitas mães, que passam por momentos terríveis na hora do parto. Comigo, felizmente, foi diferente. Como as pernas estremecem quando nos damos conta de que temos aquele ser sob nossa inteira responsabilidade. Como as palavras engasgam quando achamos que não vamos dar conta de tudo, mas damos, sim, pois somos mãe. Como a noção de tempo no hospital e em casa é diferente. Conselhos? Ouvi muitos, descartei outros tantos, apliquei aqueles que se adequaram à minha realidade. Após alguns dias, ainda dolorida com o pós-parto, a ficha caiu. Chorei muito, mas um choro de extrema alegria. Não é possível explicar. Dizem que apenas entende quem já é mãe. Hoje entendo um pouco disso. As primeiras mamadas, os primeiros choros, que nos fazem chorar também, os primeiros esboços de sorriso. As primeiras vezes que não apenas a fralda ficou suja, as primeiras frutinhas, o primeiro sentar e engatinhar, o primeiro “mamãe” ou algo parecido que transformamos em “mamãe” se não for. Ah, como é bom poder sentir tudo isso. Ser mãe, embora pareça uma frase clichê, é, sim, maravilhoso. Há os momentos difíceis, sejamos realistas. Como há. Entretanto, é importante entendermos que cada momento nos serve, também, de aprendizado, de crescimento. O que serviu para uma mãe, pode, ou não, servir para outra. Como entendo minha mãe hoje! Cada uma com suas vivências e experiências. Cada uma com o seu tempo.

Por falar em experiências, como são enriquecedoras, pois, a cada momento, há uma novidade. Certa vez ouvi de uma amiga o conselho “Tenham filhos! ”. Hoje entendo o porquê de sua frase. Sim, tenham filhos, cresçam com eles. Deixem o tempo fazer sua parte. Foi importante voltar ao trabalho após a licença maternidade. Doeu? Claro que sim, e muito, mas também é um aprendizado para mãe e filho. Ali temos a ideia de que o tempo para novamente, mas no sentido de o dia parecer ser infinito, pois não vemos a hora de pegar o bebê no colo novamente e voltarmos para casa. Ser mãe é impecavelmente bonito, mas é importante voltarmos à vida que tínhamos anteriormente. Afirmo que, por mais que “voltemos”, nunca será igual – que bom! Posso dizer, sim, que sou uma profissional melhor hoje, pois vejo as situações com “outros olhos, outros ouvidos, outro coração, outra razão”. Ser mãe é abrir os horizontes, é entender melhor o outro, é se colocar no lugar do outro. Ser mãe é entender que aprendemos com o tempo o que apenas ele é capaz de ensinar.

Rafaela Zang Mesquita

Professora e mãe