Anterior a escola e ao bullying, devemos pensar no processo do desenvolvimento humano. A criança inicia sua vida sendo um bebê totalmente dependente do outro, a figura materna é um espelho do mundo, ela transmite tudo ao bebê e aos poucos esta criança começa a ter a sua autonomia, mas ainda assim, é muito dependente. O desenvolvimento se dá de forma contínua, uma fase não bem desenvolvida, terá algumas consequências no futuro.

A escola é o primeiro meio social onde a criança vai mostrar o que aprendeu na sua família. O que faltou na família, a criança pode aprender e desenvolver habilidades com o professor e outros recursos, como contação de história, brincadeiras, mas geralmente com alguém de sua referência, que tenha algum vínculo.

No Brasil os estudos científicos com o termo bullying começou a aparecer a partir de 2000 e já indicava que violência doméstica e escolar são fatores de predisposição para essa violência escolar acontecer. O bullying é um fenômeno que se caracteriza por qualquer tipo de violência, seja física ou verbal, que ocorre de forma repetitiva e intencional contra uma ou mais vítimas. É caracterizada por desequilíbrio de poder e ausência de reciprocidade, a vítima dispõe que quase ou nenhum recurso para evitar ou defender-se da agressão, não há motivo legítimo para acontecer de fato. O envolvimento pode acontecer de quatro formas: o espectador, está ciente, mas não interfere; vítimas, agressores e vítima-agressor.

Os agressores não podem ser os únicos responsáveis pela violência, uma vez que também são produtos dela e portanto vítimas, consequência de diversos conflitos, principalmente de famílias desestruturadas, onde os cuidadores utilizam a violência e intimidação para resolver os conflitos. No agressor há uma falta de empatia e o uso da agressividade como uma forma de status dentro do grupo, maior prevalência deste comportamento na adolescência, por isso de não naturalizar este processo.

O agressor busca um perfil de vítima que apresente alguma “falha”, seja física, emocional, social, econômica.  As vítimas costumam ser frágeis, passivas e com baixa autoestima. Comoconsequências, simulam doenças para faltar a aula, há mais probabilidade de desenvolver depressão e 4x mais risco ao suicídio. Quem pratica o bullying há relação entre indisciplina e dificuldades de aprendizagem, já as vitimas apresentam maiores dificuldades de aprendizagem. Estudos mostram a prevalência dos meninos usarem mais agressões físicas e as meninas estão mais associadas a agressões mais sutis e mais difíceis de serem identificadas, mas tão danosas quanto à física.

Alguns exemplos de manifestações: comportamentos físicos agressivos, como chutar, empurrar, bater; manifestações verbais, como gozações, apelidos pejorativos; relacional, como agressividade através de ameaças, acusações diretas e indiretas, roubo de dinheiro, pertences, difamações, degradação de imagem – discriminação ou exclusão.

A agressividade faz parte do comportamento humano. Na infância e adolescência é normal utilizar deste recurso para lidar com os problemas e essa violência é um somatório do ambiente mais o jeito de cada pessoa, portanto cabe a família controlar esse comportamento, impor limites e equilibrar o ambiente. O meio escolar dá continuidade neste cuidado primário, reforçando essas condutas.

O bullying é reforçado ou enfraquecido por uma complexa rede de interação entre estímulos aos quais estão expostos os jovens, as famílias e as escolas, contexto sociocultural. Ele ocorre no coletivo, por isso é social, também é uma questão de saúde pública. Os professores têm a função de serem agentes de transformação, possibilitando trabalhar em um ambiente mais saudável e de promoção de saúde e desenvolvimento, mas a escola sozinha, não faz muito!

Buscar no município parcerias para não ser de responsabilidade apenas da escola, mas da rede de educação, de saúde, de segurança, da família e sociedade. Melhorar as relações: relação professor e aluno – há uma falta de aproximidade; relação família e aluno – muitos pais nem sabem dos acontecimentos; relação entre os pares – fundamental para o desenvolvimento social saudável. Cada pessoa tem o seu papel e todos juntos somam e fazem a diferença, pois culpar apenas o agressor por todo um contexto não é enfrentar essa problemática da sociedade atual.

Contribuição da Psicóloga do Espaço Dom Quixote,

Fernanda Rizzardo